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sábado, 20 de janeiro de 2018

Os recortes são outra coisa...

Artigo de Pacheco Pereira no Público, sobre o valor dos recortes de jornal:

De facto os recortes de papel de jornal são outra coisa...como provam estes que apresento a seguir e que Pacheco Pereira provavelmente nunca viu, ou já esqueceu, do Século Ilustrado de 20 6 1970, com capa sobre o Porto. O assunto é o 10 de Junho, o desfile das tropas e a condecoração dos familiares de militares mortos ou feridos no Ultramar.  Os que foram heróis e andam muito esquecidos por mor da perda de memória dos pachecos e companhia...

Numa coisa tem razão, o Pacheco: isto não se encontra na Internete. Nem se ensina nas madrassas do jornalismo nacional.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

As cooperativas no tempo do fassismo

Durante o PREC de 1975 ficou gravado em filme a tomada de posse de uma herdade- Torrebela- com um episódio cómico sobre a "ferramenta" que devia ficar para a "cooperativa".

O comunista de serviço perguntava insistentemente ao trabalhador que lhe fazia orelhas moucas: "qual é o valor da tua ferramenta? Qual é o valor da tua ferramenta?" para lhe significar que se estivesse ao serviço da cooperativa teria maior valor...o que o indivíduo não compreendia. O episódio é um emblema do novo modo de produção na então "reforma agrária": cooperativas.

Pois bem, em 6.4.1970 o Século Ilustrado publicou esta reportagem sobre as cooperativas em Portugal, muito tempo antes do PREC:


Moral da história: não foi preciso chegar o 25 de Abril de 1974 e o comunismo para as pessoas em Portugal perceberem o valor da sua ferramenta...

Look: Life is over!

Século Ilustrado de 9.5.1970:


A notícia dava conta que as revistas Life e Look, duas das maiores revistas americanas da época estavam em dificuldades financeiras por não venderem o suficiente para não terem prejuízos que eram já da ordem dos milhões de dólares. 

A Life tentou renovar-se com um novo director, cujo nome nem sequer é indicado (Hedley Donovan em Dezembro de 1969) , o qual mesmo cortando a eito nas despesas com pessoal, não conseguiu estancar a sangria financeira.
A Look tinha o mesmo problema. E ainda não havia internet ou publicações online, pelo que a razão da quebra de vens tinha a ver com algo completamente diferente: o produto não agradava a leitores suficientes. Parece-me que o problema é o mesmo de agora com certas publicações como a Visão ou a Sábado: os seus editores não percebem suficientemente o gosto ou interesses dos leitores e acabarão igualmente por desaparecer...

Assim, no final dos anos sessenta essas revistas tinham o futuro ameaçado.  A Life publicava-se então semanalmente e tinha centenas de empregados, entre jornalistas ( repórteres) , editores, grafistas e fotógrafos.  Tinha mesmo edições internacionais.
A Século Ilustrado, ao lado da Life ou da Look diferenciava-se como um pequeno jornal regional de um semanário de grande circulação.

A Life aguentou-se nesse formato até ao ano de 1972. A partir daí saía de vez em quando. A Look caiu logo em 1971.


Em Outubro de 1996 ao perfazer 60 anos de existência a Life editou um número especial com a ilustração de todas as capas da revista até então publicadas. A composição de algumas centenas dava uma imagem de Marilyn Monroe, ilustrada em computador.




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Uma "conversa em família" em Abril de 1970

Século Ilustrado de 25 de Abril de 1970:



O que se percebe do teor destas declarações que são uma fonte primária, contrasta com o discurso verborreico e costumeiro dos antifassistas.

Marcello Caetano referia-se a Mário Soares e ao papel anti-patriótico que o mesmo desempenhava no estrangeiro. Fala sobre a liberdade de expressão, sobre a guerra no Ultramar e sobre as eleições. Tudo matérias que actualmente são desvirtuadas, mesmo com os factos todos à mostra, nos relatos históricos.

Se isto acontece com factos de um passado nem por isso muito remoto e vivido por muitos, o que fará com os relatos acerca de um passado que nem sequer foi vivido e é apenas conhecido de cor...


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Histórias da II Guerra Mundial

Em finais da década de sessenta, talvez motivado por filmes de guerra que se viam na tv, a preto e branco e livrinhos de cóbóis com historietas da II Guerra mundial em que os alemães apreciam sempre como os maus dessas fitas, comecei a interessar-me por saber um pouco mais sobre o que foi essa guerra.
As fontes de informação sobre o assunto não eram abundantes, em Portugal e nessa altura não se me colocava a questão de saber se a informação disponível era suficientemente isenta e imparcial. O que lia tinha quase sempre a chancela de editores que partilhavam a visão dos vencedores ou então consistiam em relatos de protagonistas que tinham sido vítimas, como os judeus.
Havia livros e foi por aí que comecei, a ver os catálogos das editoras.

A editorial Aster tinha uma colecção razoável, em 1969:


Foi por aí que comecei, em Junho de 1969, ao comprar a biografia de Rommel escrita por um alemão e depois, em 1971 com um relato da guerra vista por um soldado alemão:


O interesse por Rommel prendia-se à curiosidade pelas grandes batalhas e a campanha do Afrika Korps e duelo com Montgomery que o alemão perdeu, era contada pelo meu pai que chegou a viver os acontecimentos, na altura empolgantes,  pelos relatos da época.

Faltava-me uma história da Guerra e à míngua de melhor ( que custavam muito mais caro) comprei esta, em 1971, que aliás nunca li integralmente porque é um compêndios de mapas, diagramas e  narrativa tecnicista da guerra.


O que na altura queria mesmo eram estas edições em vários volumes, da Europa América e das Seleções do Reader´s Digest, a mais desejada e entrevista num catálogo que vinha com o almanaque de 1970:




Entre estas histórias da História da II Guerra fui lendo e descobrindo episódios de alemães que no fim da Guerra fugiram para países onde se tornaram virtualmente desconhecidos. Sempre acompanhei as notícias sobre esses indivíduos que escaparam a julgamento por crimes de guerra e se refugiaram na América doo Sul, onde havia dirigentes políticos como Perón na Argentina e Stroessener, no Paraguai que protegiam esses fugitivos, tal como os americanos protegeram outros que lhes interessavam porque eram cientistas com saber e conhecimentos úteis, como von Braun.

O primeiro de que ouvi falar foi Martin Borman, numa publicação que não recordo,  em relação ao qual havia dúvidas de que tivesse morrido e havia quem assegurasse que se encontrava num país da América do Sul. 
O que sucedeu no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, com o rapto rocambolesco e sucessivo julgamento em Israel, de Adolf Eichman levado a cabo por um judeu, célebre caçador de nazis, Simon Wiesenthal, alimentava as histórias e mitos sobre o assunto.
As Seleções do Reader´s Digest eram uma fonte desse género de informações.

Borman não foi encontrado porque nessa altura estaria morto, mas outros foram procurados e conseguiram escapar, como Josef Mengle, cuja história foi já mencionada aqui, por causa de um livro recente acerca da sua saga de esconderijo em esconderijo, até à morte, por afogamento,  no Brasil em 1979.

Em 29 de Junho de  1985 a revista francesa Le Figaro Magazine publicou uma reportagem extensa, saída originalmente na revista alemã Bunte sobre Mengele, no Brasil, tal como contada pelo seu filho Rolf. Curiosamente, o livro de Olivier Guez, La disparition de Josef Mengele, não cita esta reportagem nem o filho do fugitivo...

 

 


Antes, em Dezembro de 1971 já tinha lido a entrevista que outro fugitivo, descoberto por Wiesenthal no Brasil, dera a um jornal inglês- The Daily Telegraph- quando se encontrava preso na Alemanha, Dusseldorf a cumprir pena de prisão perpétua.
Na altura nem li a entrevista toda porque já tinha ideia que o que tinha acontecido nos campos de concentração e era contado correspondia à verdade. Nunca lera nada em contrário, nunca ouvira nada em contrário e tudo o que lera e ouvira confirmavam a existência dos mortos em massa nos campos de concentração, o que vulgarmente se chama Holocausto. Seis milhões de judeus.

Mais tarde, já nos anos noventa comecei a ouvir falar em versões diferentes e ainda mais tarde em negação do que tinha lido que acontecera. Até hoje.

Sem elaborar muito,  a ideia que tenho é que as mortes em massa e programadas,  aconteceram e se não foram seis milhões foram muitas centenas de milhar, mais do que os que morreram de doença ou causas "naturais".

A entrevista confirma tal facto.




domingo, 14 de janeiro de 2018

António José Saraiva nasceu há cem anos

No passado dia 31 de Dezembro do ano transacto passaram cem anos sobre o nascimento do historiador e homem de cultura, António José Saraiva.

Tirando os seus familiares directos, filho e neto,  que escrevem no Sol sobre a efeméride, ninguém se ralou. Estes,  para comemorarem esse centenário entrevistaram-se e publicaram a entrevista em 30.12.2017.





 

Em 1969, ano da entrevista que José António Saraiva efectuou ao pai, para o Comércio do Funchal, também a Vida Mundial entrevistou e deu a capa à mesma figura. Fernando Dacosta segurava o microfone e fazia as perguntas, já aqui apresentadas em tempos:


António José Saraiva apesar de ter publicado vários livros sobre fenómenos culturais portugueses ( Para a história da cultura em Portugal, publicado em 1946 e republicado em 1996 pelo Público e Crepúsculo da Idade Média em Portugal, também publicado pelo Público nessa altura) para além de uma História da Literatura portuguesa ( junto com Óscar Lopes)  está esquecido e não é lembrado senão pelos seus familiares.

Tal omissão reflecte o actual estado da cultura em Portugal.

Provavelmente tal ostracismo deve-se a isto:

Em 15 de Dezembro de 1990, o Expresso entrevistou-o a propósito do lançamento de mais um ensaio, dessa vez sobre as figuras maiores da geração de 70.

O que o afasta da actual moda de dizer mal de Salazar é a frase do final: "Salazar era um homem respeitável" :



Logo após o 25 de Abril de 74, AJS cronicou algumas vezes na Vida Mundial, explicando noções básicas de política para quem na altura carecia de tais informações. Vida Mundial 31.10.74