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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Afinal já não quer ser queijeiro. Também gosta de tgv...




 
Observador:

Jorge Coelho volta à administração da Mota-Engil, cinco anos depois de se demitir de presidente.

Isto é uma grande vergonha, um embuste e um escândalo.  Mas não vai ser na Quadratura que o questionam, ao queijeiro de Contenças sobre esta pouca-vergonha.

Um depoimento Acabado sobre a guerra no Ultramar: a história das ratazanas

 Quando se fala na guerra no Ultramar a minha ideia de sempre é a de que uma guerra de guerrilha não se ganha porque está sempre a renovar-se.
Em África deparamos com uma guerra de guerrilha em três frentes e fizemos-lhe frente total. De tal modo que alguns dizem mesmo que estava ganha, apesar daquelas evidências de senso comum.

Um dos que assim pensa é um antigo combatente que dá uma entrevista extensa ao Sapo24 e que vale a pena ler na íntegra.

 Daqui:

Tem das histórias mais surpreendentes vividas na Guerra do Ultramar para onde foi como piloto-aviador. Como a do capitão que, na neblina, matou por engano a mãe de uma criança bosquímano à frente da filha, Kinda, que decidiu trazer para Portugal e perfilhar. Dormiu na cama ao lado de Iko Carreira, que viria a ser ministro da Defesa de Angola entre 1975 e 1980, a quem poupou a vida mais do que uma vez, e era amigo de Daniel Chipenda, que conheceu em Coimbra e a guerra colocou em campos opostos.
De regresso a Portugal foi secretário-geral do Conselho da Revolução em representação da Força Aérea, tendo a seu cargo o pessoal. Foi aí que se deparou com "uma monumentalidade a dar para o esquisito", como os conselheiros revolucionários a andarem nos carros "roubados" aos banqueiros fascistas. E foi também então que conheceu Cavaco Silva, um homem de quem guarda uma péssima imagem.
Pediu para passar à reserva aos 40 e poucos anos, quando a tropa já não lhe dizia nada e no momento em percebeu que os jogos políticos falavam mais alto. Mas ainda voltou a África, ao Congo, depois de ter feito sociedade com um bispo luterano que conheceu em Sevilha: comprou duas traineiras em Setúbal, a Portugal e a Setubalense, e levou-as para pescar no Lago Tanganica. Ouro sobre azul. A empresa desfez-se nos anos noventa, mas as traineiras ainda lá estão hoje, activas.
 
Aos 83 anos continua a escrever a sua história e as histórias daqueles que, no céu e na terra, fizeram parte da sua vida: de "Kinda e Outras Histórias de uma Guerra Esquecida" a "Margem Esquerda", passando por "Histórias de uma Bala Só – Acasos de Vida e de Morte" até "Conversas com um Gorila Chamado Virunga", contos para crianças e não só. Enquanto termina o próximo livro, "A Grande Viagem de Maumude", é a vez de o SAPO24 traçar o retrato de Carlos Acabado, um alentejano optimista.
A história de Kinda, que dá origem a um dos seus livros, é fantástica. Quer contar como aconteceu?
Passa-se com um capitão meu amigo, que já morreu. Ele ia numa missão de ataque e foi lançado de helicóptero. Em Angola, como em África em geral, arrefece muito à noite e forma-se uma neblina que se estende para as margens. Ele subiu a encosta e, de repente, vê o que julga ser um vulto com uma arma e, instintivamente, atira. Era uma mulher com um pau de bater fuba, um pilão. Matou-a. Ela estava com uma criança e a miúda correu para ele a chorar... Ela tinha família, mas ele quis ficar com a pequena; trouxe-a para Portugal, perfilhou-a e educou-a como aos restantes filhos.
Onde pára Kinda?
Penso que neste momento está em África, no Lubango, antiga Sá da Bandeira. Este capitão morreu com um ataque cardíaco e não sei o que é feito da mulher, perdi o contacto com eles. Depois da guerra iamo-nos encontrando e a última vez que o vi foi em Coimbra, estava ele exactamente na queima das fitas da Kinda - a quem mudou o nome para Maria Adelaide. Fizemos uma grande festa, recordámos toda aquela cena... A miúda, que era bosquímano, geralmente mulheres esbeltas e com os olhos achinesados, fez-se uma bonita rapariga. Ele morreu passado pouco tempo, nunca souberam do livro. A mãe, se for viva, deverá ter uns 81 ou 82 anos. A Maria Adelaide deverá andar entre os 50 e os 55 anos.
 
É possível viver em paz na guerra?
É. É difícil, mas... A guerra é um fenómeno muito esquisito, é uma coisa estúpida. Mas vemos além da guerra, sabemos o que sentem os nossos inimigos. No momento em que a guerra acabou ficou tudo bem, penso que isto só aconteceu com o povo português. Há uma relação até de amizade com alguns inimigos. Eu, por exemplo, era amigo do Daniel Chipenda, que tinha conhecido em Coimbra.
Como é que o conheceu?
Esse é outro episódio da minha vida. A Força Aérea resolveu mandar para junto do meio universitário uma espécie de caixeiros-viajantes com o objectivo de recrutar pessoal. O chefe do Estado-Maior chamou-me e disse: "Você vai para Coimbra com ajudas de custo permanentes [que naquele tempo era dinheiro, qualquer coisa como 200 escudos por dia, além do ordenado e gasolina], hospeda-se no Hotel Astória e vai representar a Força Aérea e fazer publicidade da Força Aérea". E lá fui com dois aviões e um sargento piloto coimbrão (morreu num acidente); comecei com aquela história e acabei na República dos Paxás, na ladeira do seminário [risos]. Integrei-me de tal maneira que quando casei aquela malta foi toda ao meu casamento. Na viagem de núpcias passei por Coimbra e fui tomar um café ao Nicola, que era onde nos juntávamos à noite. Vem o criado, vira-se para a minha mulher e pergunta: "A senhora namora este senhor?" "Namoro não, casámos!", diz ela. E ele responde: "A senhora teve uma pouca sorte terrível". Ela, coitada, nem queria acreditar. Tive de explicar: "Ó senhor Martins, olhe que a minha mulher não é de Coimbra, é de Lisboa". Mas ele insistia, e ela aflita...


E foi na República dos Paxás que conheceu Chipenda, estudante de Coimbra e titular da Académica?
Foi. Depois eu fui para um lado e ele para outro. A seguir à guerra juntámo-nos outra vez e falámos da experiência de cada um. Uma vez as tropas dele furaram-me o avião e aquilo foi mesmo mau, mas conseguimos aterrar. O Daniel Chipenda chegou a dizer-me: "Se por acaso eu morrer em Angola e não me quiserem lá, enterrem-me em Coimbra". Isto, dito por um emancipalista de um angolano, revela a relação que tínhamos. Aquela foi uma guerra quase civil, entre irmãos. No meu curso tive o Iko Carreira [primeiro ministro da Defesa de Angola, entre 1975 e 1980], que dormia na cama ao meu lado, na camarata. Havia uma certa relação... O Iko Carreira não foi apanhado pelas nossas tropas porque o protegíamos. Para o apanhar era preciso matá-lo e ninguém queria matá-lo. Por duas vezes ele esteve com a arma apontada. São histórias que não vêm na história. Era uma miséria total; gastei – gastou a Força Aérea – horas de voo a levar miúdos e pessoas doentes para os hospitais. As rações da Força Aérea eram melhores porque vinham da América. Enquanto os do Exército tinham sardinhas, umas latas dificílimas de abrir - até se dizia de um problema que era quase tão difícil como abrir uma lata de sardinhas -, as nossas até tinham um bolo, uma espécie de queque que quase sempre dávamos aos miúdos das sanzalas. Dávamos uma grande assistência à população.
É estranho, ao mesmo tempo que se abate salva-se?
É. Mas toda a gente diz que viu atrocidades, abater civis, cabeças espetadas em troncos... Eu nunca vi e estive lá 12 anos. De uma maneira geral, o nosso soldado é um sentimental. Claro que é capaz de dar um tiro, tem de ser, mas nunca notei, e andei muito a pé, nenhuma barbaridade. Vi famílias enforcadas pelo MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola] e até um homem atado pela UNITA [União Nacional para a Independência Total de Angola] a um pau cheio de mel para as formigas o comerem vivo - estava praticamente morto quando lá chegámos.

Fez muitas amizades com o inimigo?
Uma vez, no meio de uma tempestade, aterrei numa pista que encontrei para me safar. E estive uma noite à conversa com um comerciante local, que me acolheu e me contou que tinha filhos de africanas, como todo o bom português. E dois eram terroristas. Recebeu-me lindamente e, muito calmo, ao jantar contou-me aquilo. "Então mas você diz-me uma coisa dessas?", perguntei. "O que quer que lhe diga? A realidade é esta", respondeu. Em Teixeira de Sousa, que era uma cidade fronteiriça, sempre em ebulição, havia um hotel que era uma espelunca, pior que qualquer estalagem do antigo Bairro Alto, o Hotel Sepol. E Sepol era Lopes ao contrário, o que representava o espírito da cidade: era tudo ao contrário. Encontrávamos lá mercenários que vinham do Congo aviar-se... Tive grande amizades, tanto com brancos como com africanos. E tenho uma filha que nasceu lá, o cartão de identificação diz que é natural do Luache, que ninguém sabe onde fica.

Ouvi-o afirmar que a guerra estava ganha. Porquê tanta certeza?
A guerra estava ganha, não tenho a menor dúvida. Estou a falar de Angola, mas mesmo em Moçambique era possível e na Guiné as informações que tinha dos meus amigos militares era que a guerra não estava perdida, pelo contrário, havia mais oferta de africanos para as nossas forças do que para o PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde]. Devíamos ter aguentado mais uns tempos para dar uma independência decente a esses países, não era para manter o império. Uma independência civilizada. Faltava aceitação política, mas militarmente a guerra estava ganha, afirmo onde for preciso. O MPLA, que é hoje senhor, dono e ladrão de Angola, não existia. Até o Daniel Chipenda, um dos cabeças do MPLA, me confessou: "Estávamos para nos entregar" quando foi o 25 de Abril. O general Bettencourt Rodrigues [Ministro do Exército (1968-70) e governador-geral da Guiné (1973-74)] confinou a UNITA e eles colaboravam connosco e o FNLA [Frente Nacional de Libertação de Angola] tinha desaparecido. Posso dizer-lhe que fazia calmamente num Mercedes, com a minha mulher e filhos, 300 km até Henrique Carvalho, 600 km até Malange e depois outros 300 km até Nova Lisboa. Veja a confiança que eu tinha em como eles estavam derrotados.
Como vê hoje as relações entre Portugal e Angola?
Penso que são as relações entre pai [Portugal] e filho [Angola] desavindos. Entregámos Angola por influência, sobretudo, do Partido Comunista e depois Mário Soares entregou aquilo a quadrilhas. Mas é uma fase, quarenta ou cinquenta anos na história de um país não são nada. Vai normalizar. Porque ninguém consegue estar em África como nós. Tenho a experiência pessoal e posterior do Congo, onde os portugueses são tratados como congoleses, somos l'enfants du pays, filhos da pátria, e isso dá-nos uma vantagem fantástica.

 Em relação a Angola fala de pai e filho desavindos. Angola quer sentir-se filho?
Angola tem a nossa cultura. Mas ainda hoje Angola corre o risco de se fragmentar, porque aquilo não é um país, é uma zona tribal. E isso é evidente nas mínimas coisas. Os angolanos entre si são tão diferentes como nós dos espanhóis ou como nós dos italianos. Os portugueses, bem ou mal, deram a Angola a estrutura de nação que procuram ter, mas com complicações. Quer queiram, quer não, falam a nossa língua, têm os nossos hábitos e eram a província ultramarina mais portuguesa, absorveram muito de nós.
A parte da corrupção também?
Também. Infelizmente também lhes demos exemplos desses e eles sabiam. Tinham a escola primária e evoluiram depressa. São autênticas quadrilhas, com a agravante de haver muito mais para roubar do que aqui, ninguém calcula. Uma das pessoas de que lhe falei estava numa zona de diamantes e sabia os rios, os canais, onde eles estavam. Uma vez só a pesquisa para ver se valia ou não a pena explorar uma mina justificou todo o investimento. Agora é que a canção do Zeca Afonso é aplicável: roubam tudo e não deixam nada. Lá e cá.

Estava em Angola no 25 de Abril. Quando soube que tinha havido uma revolução?
Só soube do 25 de Abril uns dois dias depois, quando aterrei e o comandante me contou que teria havido uma zaragata para Lisboa. Quando me disseram que um dos mentores do golpe era o Costa Martins [fez parte do Conselho de Estado e foi ministro do Trabalho nos II, III, IV e V Governos Provisórios], que era do meu curso e fomos como irmãos, pensei: "Isto não pode ser a sério, estamos desgraçados!". Eu conhecia o Costa Martins de ginjeira, era bom piloto e muitas outras coisas, mas para aquilo não servia. Depois começaram a aparecer os outros todos...
Em que acreditou, então?
Pensei que isto ainda teria remédio. Nunca conheci o general Spínola, nunca o vi nem nunca trabalhei com ele, mas fiquei com uma péssima impressão, porque é preciso uma pessoa ser estúpida para acreditar no que ele acreditou, que era um salvador da pátria. Aconteceu-lhe o que aconteceu: teve de fugir, disfarçado de bigodes... Uma vergonha.


Era impossível porquê?
Porque tínhamos de ser nós, que estávamos já em Angola, a ditar as condições da independência. Não éramos tontos e conhecíamos a evolução do mundo, sabíamos que aquilo tinha de ser independente, mas nunca me passou pela cabeça que uma descolonização com aquela dimensão, aquela população e a responsabilidade que tínhamos, pudesse ser feita como foi. Foi uma traição ao país. Volto a dizer que devíamos ter continuado a guerra, que estávamos à beira de a segurar. Havia lá portugueses que nunca tinham vindo a Portugal, como havia quem nunca tivesse ido a África e só lá tivesse interesses. E eram essas pessoas, a quem mandavam o dinheiro, que diziam que estava tudo perdido. Tínhamos de ter protegido tanto a população negra que era nossa como os brancos que lá estavam, os mulatos. Aquilo podia ter sido uma nação fabulosa, mas fomos vítimas de uma guerra fria.
Quando regressou a Portugal?
Vim em fins de 1975. Assisti em Luanda às guerras entre eles, canhões a atirar às arrecuas, a bombardear casas dentro da cidade. Aguentei enquanto foi possível. Mandei primeiro a família para Portugal e fiquei lá eu e o meu cão, um pastor belga, a quem tive de pagar depois uma viagem na TAP. Ainda viveu em Évora mais uns dez anos. Era um cão célebre, só lhe faltava falar. Dava-se com toda a gente e, como eu já não tinha família em Angola, quando voava tinha de o levar comigo. Enquanto o avião rolava na pista, ele, que gostava de andar de automóvel, estava bem, mas quando descolava o Lord ficava quietíssimo. Quando aterrava era uma alegria enorme. Era um cão fantástico, nunca mais tive nenhum. Um amigalhaço.


E o que foi fazer, de regresso a Portugal?
Como era alentejano, colocaram-me em Beja, assim como quem diz agora não chateies a gente. Beja era uma base alemã, só lá tínhamos um avião. De maneira que fiz voos desportivos, fotografei todos os castelos que havia... Está a ver o que é uma pessoa vir de uma guerra, com voos a sério, e ter de fazer xis horas de voo pacífico obrigatórias. Juntei o útil ao agradável. Estive lá três anos e depois o general Lemos Ferreira [chefe do Estado-Maior da Força Aérea] chamou-me para o Conselho da Revolução. Disse-lhe que não tinha nem vontade nem vocação, mas ele insistiu. O Conselho da Revolução tinha, além dos conselheiros, três secretários-gerais: um da Marinha, um do Exército e um da Força Aérea, que era eu.


Qual era o seu papel?
O meu pelouro era o pessoal, tratava dos automóveis, dos escritórios e não tinha muito mais que fazer. Nunca mais me fardei, era tudo à paisana. E havia ali coisas, uma monumentalidade um bocado a atirar para o esquisito. Aquela gente convenceu-se de que eram os salvadores da pátria, tinham o poder todo ali concentrado. E não podia ser bem assim. Depois pagaram caro com a revisão da Constituição de 1982.


Pode concretizar?
Os conselheiros andavam todos em carros roubados – tinha havido o PREC [Processo Revolucionário em Curso]. O Vítor Alves, de quem eu era grande amigo, andava no carro do banqueiro Jorge de Brito [Banco Intercontinental Português], que era um carrão, e os outros também, tudo em carro bons. Era do meu pelouro e eu achava mal os revolucionários andarem nos carros roubados aos fascistas. Afinal, estavam a fazer o mesmo que eles. Então resolvi renovar a frota do Conselho da Revolução, pedindo carros às armas. Uma das coisas que me impressionou, e me fez ficar com má impressão de Cavaco Silva, que era ministro das Finanças... Não está bem a ver o que lá ia parar e as pessoas que iam lá falar [ao Conselho da Revolução]. Como um velho democrata, socialista, a quem arranjaram um tacho de consultor no Conselho da Revolução e a quem tive de arranjar escritório. Eu tinha quarenta e pouco anos e ele mais de 80. Quando fui mostrar-lhe o escritório expliquei que depois lhe arranjaria mais uns sofás e diz-me ele: "Então arranje-me um canapé". "Um canapé?!", perguntei. "É que às vezes pode vir alguma rapariga visitar-me...", responde. Isto revela a ideia que ele fazia do Conselho da Revolução. Lá expliquei que não sabia se haveria canapés, que talvez tivesse que se contentar com uma cadeira... Coisas assim.
Voltando aos automóveis e a Cavaco Silva, resolveu a situação? E porquê a má imagem?
Nessa altura eu correspondia-me com os ministros por diversos motivos. Por exemplo, como era alentejano, não queira saber a quantidade de expropriados que vinham ter comigo a ver se lhes resolvia problemas, tudo à minha volta a ver se eu conseguia desenrascar as coisas. E eu fazia uns despachos, dava ao Sousa e Castro, e cheguei a corresponder-me com o António Barreto, que era ministro a Agricultura. Fui sempre bem recebido. No caso dos automóveis, não havia carros suficientes. No governo, no Ministério das Finanças - julgo que ainda é assim - havia um departamento que geria a frota do Estado. Por isso tive de lidar com Cavaco Silva, que ainda não era a estrela que veio a ser depois. E ele tratou-me mal – eu até já era major. Não gostei.


Cavaco tratou-o mal em que sentido?
Bem, não me bateu, mas não queria que eu lhe aparecesse com problemas daqueles, que não era assunto para ele. Expliquei por que motivo era importante, mas respondeu-me sempre já com uma arrogância de político. Fiquei com uma péssima impressão do homem.
E tratou do assunto?
Tratei eu. Foram para lá uns Volkswagen em que depois ninguém queria andar, porque achavam que não eram grande coisa. Lá se arranjaram uns carros melhores para os conselheiros e nós ficávamos com os de mais baixa gama. Mas, sobretudo, retiraram-se de circulação aqueles carrões, que ainda por cima era mau andarem por aí nas boîtes... Renovámos a frota para uma mais discreta e popular e resolveu-se assim o problema. Cada um com chauffeur, guarda-costas, secretária. Os militares não estavam preparados para assumir responsabilidades deste género. Quanto a mim, no fundo, no fundo eram loucos.


Como olha hoje para a instituição militar, em particular para a Força Aérea?
Os militares estão descredibilizados e caíram em desgraça, também por sua culpa, mas, sobretudo, por culpa dos políticos. Portugal não deu o devido valor às pessoas que combateram, mas no fim das guerras, sobretudo aquelas que se perdem, os militares ficam sempre malvistos pela população. Faz parte da história. Diziam que estávamos a enriquecer lá, que era por isso que queríamos continuar a guerra... Tudo mentira. E há um plano, eles sabem que desarticulando e desprezando as Forças Armadas elas perdem força, não vão interferir. Hoje não há nenhum coronel, nenhum comandante de uma unidade, que se atreva a trazer atrás de si dez soldados. O que quero dizer é que hoje não há qualquer possibilidade de se fazer uma revolução. A força está na Guarda Republicana, está na Polícia e há quartéis guardados por seguranças privados. Isto é admissível? O roubo de Tancos foi o quê? Não há tropa. E o uso das messes, das cantinas, para fazer catering privado é uma mancha na história da Força Aérea, mas em todo o lado há gente boa e gente má. Senti-me envergonhado. Sempre houve roubos: gasolina, sabonetes, papel higiénico, papéis para os filhos desenharem... Mas não eram milhões nem uma coisa organizada, eram uns bifes e umas galinhas para a família, para a sogra. A pirataria nunca chegou ao ponto em que está hoje.
O que o levou a escolher a Força Aérea?
Sempre gostei de aviões, mas achava que não tinha físico para ser piloto. Um dia fui experimentar e, afinal, tinha. E ainda apanhei aquela época romântica em que éramos todos amigos; se não tínhamos dinheiro para ir a casa no fim-de-semana, passávamos pela Ota e havia sempre alguém que emprestava. Estou afastado há muito tempo, mas estou convencido de que já não há a mesma camaradagem. E íamos para a Força Aérea para servir. Eu podia ter concorrido à TAP e nunca o fiz. Hoje os pilotos, não digo todos, vão tirar o brevet, que é caríssimo, à Força Aérea, financiam-se ali e depois vão embora. Isso não acontecia.


O que o levava a crer que não tinha físico para piloto?
Na altura dizia-se que os pilotos não podiam ter dentes cariados. Eu tinha e pensava que aquilo era eliminatório. Mas não, o único defeito que me encontraram foi uma dentada de um burro na perna, ainda tenho a marca.
Como aconteceu?
Na aldeia eu tinha um burro e um primo, ainda hoje somos muito amigos, tinha outro. Mas os burros não gostavam um do outro. Um dia o burro dele atirou-se ao meu e em vez de o morder, mordeu-me a mim, que estava montado nele. A dentada de burro é fortíssima, julguei que tinha partido a perna. Na inspecção da Força Aérea quiseram saber o que era aquilo, o médico nem sabia que os burros mordiam... Mas estava tudo bem, entrei para a Força Aérea e tive sorte com os instrutores que me atribuiram. Tive vários acidentes mas nunca fiquei mal, nem eu nem ninguém que ia comigo.


Lembra-se de algum em particular?
Os acidentes que tive não foram tão maus como isso. Uma vez rebentou um pneu na descolagem e o avião saiu da pista e partiu-se. Eram pistas improvisadas e o mais aborrecido foi que tive de lá ficar 15 dias até me irem buscar. Era quase nas terras do fim do mundo e demorou a arranjar um avião para lá ir buscar o avião e a tripulação, que era eu e o mecânico.
Isso já foi em África, depois de ter sido mobilizado. Mas não foi logo, foi?
Primeiro fui colocado como instrutor de pilotagem na Base Aérea de São Jacinto, em Aveiro, que era a base de instrução primária dos pilotos, onde estive três anos. Eu era alentejano, fiquei deslumbrado com a cidade, a água a correr ali pelo meio... Depois fui para Tancos fazer uma adaptação a outro avião e fui mobilizado para África; calhou-me Angola. Tive sorte, colocaram-me num sítio para onde ninguém queria ir, uma base ainda no início, só barracas, mas uma boa pista para aviões. A nossa área de voo era enorme e não havia GPS nem sequer cartas de navegação. Acabei por lá ficar 12 anos, levei para lá a família e era ali que tinha tudo organizado. E tive sorte outra vez, quer ver?


Conte...
Chamavam-me o Às do Leste da aviação, porque conhecia aquilo tudo de cor. O que não era verdade, foi um golpe de sorte. Certo dia foi à base um general, também piloto, mais novo do que eu sou agora, mas já velhote. Fui voar com ele, como segundo piloto, e como não dizíamos nada um ao outro deixei-me dormir. O homem perdeu-se e abanou-me para saber onde estávamos. Já tinha passado mais de uma hora e meia de voo e, numa extensão tão grande como a da Península Ibérica, olho para baixo e vejo um rio com três ilhotas ao meio. Era uma das minhas referências, de maneira que lá o fui orientando. Quando chegou a Luanda, o general foi dizer a toda a gente que eu era um fenómeno: ia a dormir, acorda-me e eu sei onde estou. Nasceu um mito. A partir de então eu chegava a Luanda e punham-me mapas à frente: "Que sítio é este?" [risos] Eu repondia que não sabia, mas eles não acreditavam, pensavam que eu sabia tudo e fiquei com essa fama, que não correspondia bem à verdade. Era difícil orientarmo-nos, até por causa dos ventos que desviavam os aviões, e tínhamos de ir com muita atenção para não nos perdermos. Perder-se de avião não é a mesma coisa que perder-se de carro, mais meia hora de voo é o suficiente para a gasolina acabar e o avião cair.


Quando o Conselho da Revolução acabou era ainda muito novo...
Quando saí do Conselho da Revolução pedi para passar à reserva, tinha 45 anos, mas tempo de serviço suficiente, porque fui para a Força Aérea muito cedo e em África o tempo de serviço contava a dobrar. Estive lá 12 anos, só de África tinha 24 anos de serviço. E decidi vir-me embora, porque naquela altura a tropa já não me dizia nada. Com a política, a interferência dos políticos, perdeu-se o espírito e tínhamos a noção do que ia acontecer, o estado em que estão as Forças Armadas. É um plano que estão todos a executar: esquerda, direita, centro. Nunca deixei de acreditar completamente que isto ia mudar, mas sabia que o caminho era muito difícil. Calhou à nossa geração o regresso a uma Europa que na cabeça dos nossos políticos estava à nossa espera de braços abertos. Mas não estava, estava, como está, à espera que a gente trabalhe para ganhar o pãzinho de cada dia. E hoje a União Europeia corre o risco de se desintegrar e se isso acontecer ficamos fora do baralho. Não temos nada. Concretamente, não temos nada.


Disse que esteve no Congo, já depois da guerra e do Conselho da Revolução. O que esteve lá a fazer?
Quando passei à reserva fiquei sem nada que fazer, em Évora. Num passeio a Sevilha, no hotel Los Lebreros, encontrei um africano todo bem-posto a falar um português correcto e, claro, meti logo conversa. Era de Moçambique e era bispo luterano, mas como era da facção da Joana Semião, uma activista, não podia regressar ao país. Ela foi morta e ele fugiu e estava ali a tirar um curso. Contei que tinha muitos anos de África e ele deu-me uma carta caso eu quisesse ir a Albertville, actual Kalemi. Meti-me num avião e fui. Kalemi tem o Lago Tanganica, uma das maiores reservas de água doce e onde há toda a espécie de peixes. Quando cheguei lá não havia ninguém a não ser dois gregos com um barquinho onde mandavam uns pretos pescar à noite. Eu tinha um documento da FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] com tudo descriminado... Simpatizei com o bispo, o bispo simpatizou comigo, fizemos uma sociedade. E foi assim que fiquei sócio da Igreja Luterana, que tinha a Société Generale du Lac Tanganica.

Qual era o negócio?
Na altura em que o Cavaco mandou vender e queimar as traineiras em Portugal, consegui comprar em Setúbal duas traineiras, arranjar tripulação e lá foram pelo Mediterrâneo, passaram o Canal do Suez, aportaram e continuaram por uma linha de caminho-de-ferro que começa em Elizabethville, actual Lubumbashi, feita pelos chineses como alternativa ao nosso caminho-de-ferro, com receio que fosse cortado durante a guerra, o que nunca aconteceu. Como lhe disse eu tinha os estudos da FAO e fui eu que sugeri comprar os barcos em Portugal. No comboio as traineiras iam nos vagões mais baixos, montadas ao contrário. Só que aconteceu um imprevisto: a meio caminho há umas pontes com ferros e a cabine dos barcos não passava. Está a ver o que é no meio de África ter duas traineiras num comboio que não  nas pontes. Foi preciso voltar para trás e arranjar mecânicos para, com os mestres das traineiras, desmontarem tudo. Perdemos imenso tempo, estivemos quase um mês e meio naquilo. Mas lá chegaram a Kalemi e foram metidas dentro de água.
Ainda lá estão passados estes anos?
Vendi a minha parte nessa sociedade, mas as traineiras ainda lá estão a pescar, bem como as duas famílias que foram de Setúbal e estavam desempregadas. Os barcos chamavam-se Portugal e Setubalense. Ali pescava-se e não havia regras, só em Junho é que era proibido pescar por causa de uma formiga que sai dos formigueiros - eram formigueiros do tamanho de palmeiras, feitos com uma goma que parece ferro -, e, as formigas, aos biliões, atravessam o lago ao sabor dos ventos. Muitas caem na água e os peixes vêm comê-las, por isso é proibido pescar nessa altura do ano. De resto as redes vinham sempre cheias e como aquilo era da igreja luterana uma parte era para a população. Ainda ontem recebi uma mensagem a perguntar quando é que lá volto. Respondo que isto foi há 30 anos, estou com oitenta e não quero morrer ali. A última vez que lá fui foi em 1992 ou 1993.


Foi nessa altura que visitou o Parque Nacional de Virunga, que inspirou o livro para crianças?
Sim, fui ao parque dos gorilas e estive à mesma distância que estamos, assim como se vê nos filmes. E foi aí que nasceu o livro. Vi e passei por coisas giríssimas, andava por lá de jipe com o bispo, de sanzala em sanzala. E fiquei com uma colecção de arte africana; não é artesanato, é arte comprada nos circulos deles.
O livro que está a escrever já tem título?
"A Grande Viagem de Maumude". Tem-me dado um trabalhão, mas há uma pleiade de historiadores agora na casa dos quarenta anos que é uma maravilha, tem uma nova perspectiva da História, mais real, sem endeusamentos, e isso tem-me ajudado na pesquisa. A nossa chegada ao Índico foi um choque de civilizações, nós estávamos muito atrasados. A civilização indiana e, sobretudo, a chinesa eram muito mais avançadas, até mesmo em humanismo. Não eram meninos de coro, mas nós éramos uns selvagens.
Ainda se interessa por política?
Sim, mas a política é uma desilusão. A imagem que tenho é a de um cano de esgoto que se abriu e de onde saem ratazanas, que tomaram conta disto. É um edifício tomado por ratazanas.


Há tratamento?
Muito difícil, porque não é só um fenómeno nosso, é mundial. Veja o Brasil, Israel... Perderam-se os objectivos e uma certa ética. Mas isto não vai lá com revoluções, só vai lá com a evolução. Sou contra revoluções, veja a tragédia que foi a Revolução Francesa, que toda a gente diz que foi uma coisa bestial, mas que foi o início de uma época tremenda, que ainda estamos a viver. Pode parecer blasfémia, mas é verdade. O que precisamos é de evoluir, de resgatar valores. Olhe, outro dia fui a Serralves, entrei numa sala e estava uma lâmpada pendurada e um escadote por baixo. O meu primeiro pensamento foi: o electricista esqueceu-se do escadote. E é chato, num museu. Vou ver e o escadote era a própria obra. Mas era um escadote normalíssimo... É de mais! Enfim, calhou-nos a nós esta fase mais difícil, temos de a viver, mas isto vai melhorar.


A manhã de Abril que transformou o deserto em mar morto

Vai fazer agora 44 anos que apareceu a Revolução de Abril que nos trouxe a ilustração que faltava, porque havia muitos analfabetos, como escreve hoje na Visão, o Araújo do Malomil que assim aproveita mais um escrito para solidificar uma reputação de democrata de regime e consultivo de presidentes pop.

Leia-se este fresco de "banalidades de lugares-comuns":



Dantes era o deserto escuro da iliteracia e analfabetismo, embora frequentado em pequenos oásis por uma elite de cultores de livros proibidos.
De súbito e numa manhã de Abril abriram-se as comportas da barragem desse assuão e o deserto português foi inundado da literatura mais progressista e moderna que se vendia no estrangeiro. Os portugueses que também produziam disso ficaram afogados nas margens da falta de assunto.

Agora, sim! Há literatuda a rodos, literacia plena e analfabetismo nulo. Tudo fruto daquela manhã radiosa que Abril abriu.

Tenho por aqui ensaiado uma tentativa de compreensão do que ocorreu antes e depois dessa manhã de Abril. Procuro compreender e mostrar o fruto desse labor que para mim tem uma utilidade pessoal: não acabar estúpido de todo e alienado do entendimento das coisas.

Por isso uma conclusão se me impõe, desde já, ao contrário do que estende o escriba do malomil: o grau de cultura e conhecimento existente antes daquela manhã de Abril era mais vasto, coerente e sólido do que actualmente, em diversos domínios e isso a nível popular.
Isso o demonstra o acervo arquivístico de jornais e mesmo livros que aqui tenho deixado ao longo dos anos para consulta dos profetas e discípulos dos ensinamentos daquela manhã de Abril.

Os jornais anteriores à manhã de Abril tinham suplementos culturais que hoje não há e neles tinham lugar os que habitavam naqueles oásis do deserto salazarista: os esquerdistas em flor. Nunca tiveram grandes faltas de água cultural, por isso e porque ninguém lhes secou ou envenenou os poços. Ao contrário, logo que saíram dos armários dos oásis trataram logo de inquinar a pureza da água livre com mixórdias várias que aprenderam a confeccionar nos receituários que liam à socapa.

 A grande carência e erro estratégico dos sheiks e camelos que então dominavam aquele deserto foi o de cercar os oásis e impedir a circulação de alguns beduínos fascinados com as miragens de felicidade na terra, à custa do tráfico de ideias feitas. Se os tivessem deixado à solta teriam morrido de sede no deserto, como aconteceu noutras paragens.
Assim, logo que abriram as comportas tomaram conta das máquinas, abriram as torneiras todas, encanaram as ideias feitas e despejaram-nas sobre o analfabetismo existente, reforçando a dose, afogando a paisagem anterior.

Resultado deste efeito da manhã de Abril: duas bancarrotas, iliteracia  ideológica, aumento das miragens dos que escaparam à inundação do que existia antes da manhã de Abril.
Ainda hoje andamos nisso e o Araújo do malomil é um dos descendentes desse fascínio.

Em concreto  para ilustrar a ideia metafórica:

Quando surgiu o 25 de Abril havia pouca informação popular acerca das ideologias e particularmente do esquerdismo vicejante entre as elites. É uma afirmação que tento demonstrar através destes sinais:

No artigo que no outro dia foi aqui publicado, sobre os acontecimentos na Checoslováquia de 1968 é possível ler o que era o comunismo na então URSS e o estalinismo e as divergências ideológicas que surgiram e motivaram a invasão daquele país. Mas não se lê uma linha sobre o PCP, o seu líder Álvaro Cunhal que chegou a acoitar-se nesse país e o que pensava sobre a invasão de Praga. Quem escrevia os artigos sabia disso? Provavelmente sim, mas era proibido pela censura qualquer referência desse género ao PCP, embora desconfie que não era assim tão proibido.

Este exemplo serve para demonstrar uma das razões pelas quais o PCP ganhou peso institucional depois do 25 de Abril, logo nos primeiros dias, mesmo com um Cunhal e um Domingos Abrantes, exilados e vindos muito a medo para cá, sem saber bem o que os esperava.
Esta é a imagem ( do Século Ilustrado de 1974)  pouco conhecida do momento em que Álvaro Cunhal e Domingos Abrantes ( e a mulher dele) chegaram ao aeroporto da Portela, alguns dias depois da manhã de Abril de 1974. São estrangeiros ideológicos que aterraram no país vindos de algures. São os mujaedin daqueles beduínos fascinados.


Sobre o fenómeno que se passou a seguir, a abertura incontrolada daquelas comportas ideológicas já deu o meu contributo aqui, mais elaborado. Aponto apenas um sinal mais: em Outubro de 1974 um intelectual que tinha usado um dos oásis, depois, no fim da vida, desiludido das miragens, escrevia na revista Vida Mundial sobre conceitos que entendia insuficientemente apreendidos pela população. Neste caso sobre o socialismo, mas antes sobre o capitalismo.


Outro sinal importante e que me lembro bem de observar: um dos livros didáticos, lançados nos primeiros meses depois da manhã de Abril, foi este que se vendia nos quiosques e deve ter tido grande sucesso. O meu exemplar é de Junho de 1974:


Ainda outro sinal bem revelador: é do conhecimento comum e banalidade por isso mesmo, que os oficiais que se arvoraram em técnicos da abertura da barragem na manhã de Abril, eram analfabetos ideológicos. Com excepção de um deles que foi sempre apontado como o intelectual do grupo- Melo Antunes- eram todos analfabetos políticos, confessadamente.
Um tal Vasco Gonçalves que acabou nas malhas daquela seita que invadiu o país, com ideias estranhas vindas de algures, dizia nos primeiros meses depois dessa manhã que o ideal de país, para si, seria uma Suécia ou uma Itália. Acabou a louvar a ilhota de Cuba e o seu povo libertado do imperialismo. Exactamente como outro militar, Otelo Saraiva de Carvalho. Este ainda foi mais longe: fascinado com as ideias peregrinas queria impô-las à lei da bomba, acabando preso.

Enfim, não será arriscado dizer que em Portugal, antes da manhã de Abril, a cultura popular e conhecimento das realidades, apesar de  se exprimir com uma clareza e entendimento notáveis, do que é exemplo o tratamento noticioso dado a realidades como a Siderurgia Nacional ou mesmo fenómenos das diversas áreas do saber, sofria de um anquilosamento grave e que se revelou fatal a longo prazo: um analfabetismo ideológico que foi aproveitado pela Esquerda para passar a mandar no país. Até hoje.

Antes da manhã de Abril uma das figuras de proa que falava abertamente nos perigos do fascínio comunista era precisamente o presidente do Conselho, Marcello Caetano que fez nas suas "conversas em família" vários avisos, certeiros e ideologicamente correctos sobre o que se passava nos oásis: ilusões e miragens. Porém, poucos lhe deram ouvidos e esqueceram de todo os recados, logo  seguir à abertura das comportas da Liberdade.

Nos escritos compilados em volume editado pelo governo de então ( resumo das actividades do 4º governo, ou seja no final de 1972) , Marcello Caetano dizia como já aqui se mostrou:


 Estas ideias simples foram simplesmente afastadas e perderam qualquer validade depois da manhã de Abril e importaria perceber porquê, sendo essa uma das razões por que escrevo aqui, talvez  mais importante.

Foram substituídas por estas que agora se explicam claramente num pequeno volume editado pelo Le Monde há alguns dias e que explica as noções básicas do marxismo que sustenta ideologicamente a Constituição que temos e a ideologia política que é pervasiva na nossa sociedade actual, portuguesa:


Estas ideias nunca foram claramente discutidas, fora dos oásis, na sociedade portuguesa anterior à manhã de Abril.
Logo a seguir, continuaram a não ser discutidas porque inundaram todo o ambiente, inquinando todo o deserto anterior que passou a ser um mar morto.

Foi isso que tentei perceber quando escrevi aqui sobre "quem tem medo do comunismo". 

De qualquer modo os oásis continuam a existir no mar morto português e são ocupados pelos mesmos e respectiva descendência, como é o caso do malomil.

Dos antigos sheiks e camelos não se conhece grande coisa a não ser que vivem das esmolas dos novos senhores beduínos.





quarta-feira, 18 de abril de 2018

Um desaforo?

 Sapo24:

“O que está a acontecer é para nós absolutamente lamentável e deplorável", disse adiantando que “não há nenhum juiz que fique confortável com o que está a acontecer”.
A SIC e a CMTV divulgaram vídeos de interrogatórios no âmbito do processo Operação Marquês, tendo na terça-feira o Ministério Público (MP) anunciado a abertura de um inquérito para investigar esta situação.
Manuel Ramos Soares defende que o caso da divulgação das imagens deve ser investigado e que deve haver punição se houver indícios de crime.
“Exigimos que se investigue o que esta a acontecer e se apure responsabilidade para que não se transforme numa regra”, frisou.
Por outro lado, o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses considera que as imagens não demonstram nem a culpabilidade do arguido nem a sua inocência, classificando o caso como “um julgamento mediático ao lado de um processo”, desvirtuando o que é a resposta processual.
“Aquele arguido se chegar a um julgamento como todos os outros terá direito a um tribunal imparcial que irá julgar os factos de acordo com as regras do processo e se tiver cometido um crime será punido e se não tiver cometido será absolvido”, disse.
Os julgamentos, adiantou o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, “fazem-se em tribunal com as regras do processo".
Embora considerando que a investigação jornalística é importante, Manuel Ramos Soares defende que, mesmo no plano do que é uma investigação jornalística, este assunto foi longe de mais.
 (...)
 A procuradora-geral da República disse hoje ter ficado desagradada com a divulgação na televisão de vídeos dos interrogatórios da Operação Marquês, no âmbito do qual o Ministério Público acusou, entre outros o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

Vejamos se têm razão estas pessoas que agora rasgam as vestes:

O que se tem visto nas reportagens da SIC e da CMTV ( a TVI tem lá o homem de mão, para impedir o desaforo, propriamente dito) são excertos do interrogatório de alguns arguidos no processo Marquês, mormente Ricardo Salgado, Helder Bataglia  e José Sócrates, au naturel, tal como aparenta ser neste tipo de situações, ou seja em forma de animal acossado.

Será razoável os que as tv´s têm feito, ou será crime catalogado?  Para afirmar este crime já se aponta ( os do costume que rasgam sempre as vestes quando se trata de Sócrates e entourage) a violação da sagrada privacidade e do ainda mais sacratíssimo direito à imagem reservada.

Acontece porém que este interrogatório vai servir para prova no processo crime. É para isso que lá está e a imagem dos visados, enfim, para dizer o menos, é inócua porque é de tal modo conhecida que bastaria o som e uma foto fixa para se entender o mesmo.
E o que é este "mesmo"? Ora aqui é que se torna relevante falar no assunto.

A SIC e a CMTV aparentemente fizeram um trabalho de casa que sendo baseado nos elementos do processo a que tiveram acesso legítimo ( os meios de prova foram disponibilizados a um número alargado de intervenientes, incluino quem se constituiu assistente ) também tem muito e de qualidade assinalável de trabalho próprio.
Que trabalho próprio é esse? São os gráficos, as ilustrações, as transcrições, a opinião continda mas inequívoca sempre que se deparam com contradições e aspectos ridículos na defesa dos arguidos que tentam aldrabar o senso comum.  Esse trabalho é precioso e mais ninguém o faz, sendo certo que a PGR deveria ter feito algo mais quando divulgou o teor da acusação, em modo resumido.
O que os media agora fazem é em prol de um interesse público indiscutível e inerente aos factos concretos que lidam com corrupção e figuras públicas cuja actuação pode ter lesado o povo português em milhões de euros.
Parece que este aspecto conta muito pouco para quem agora rasga as vestes e preferiria o silência, sem explicações, apesar de saber muito bem que a Justiça se aplica sempre, constitucionalmente, em nome do povo.
Neste tipo de crimes qualquer pessoa tem o direito de se constituir assistente pelo que virtualmente todas as pessoas têm o direito de saber o que se passa no processo, particularmente o que a tv tem mostrado.

E o Povo tem direito a saber o que se passou, mesmo contado pelos media, uma vez que as instituições que o deveriam fazer não o fazem devidamente. Porque não podem mas também porque é mais confortável, assim.

Pode alegar-se que ainda subsiste uma violação de segredo de justiça que permanece até à abertura da instrução ( embora a PGR diga que já não há segredo de justiça). Pode, mas não deve. Quem tem sistematicamente violado tal segredo é um dos arguidos ( José Sócrates) e os seus advogados e nada lhes acontece porque é um "direito da defesa".

Se é, aceitem então o direito do povo saber mais do que lhe dizem quem teria obrigação disso...

Também está previsto ( artº 88º nº 2 do C.P.P.) como "crime de desobediência" simples a transmissão de imagens e sons sem a concordância dos visados, arguidos. Mas um crime pode ter razões que justifiquem e eliminem a incriminação, mormente se existir um direito superior que se possa sobrepor, como seja neste caso concreto o direito de informar o povo após as barbaridades publicamente exibidas por alguns arguidos que mentem e tornam a mentir, sem contraditório algum.

O desaforo, neste caso, é perfeitamente legítimo segundo as regras do conflito de deveres. E não se trata de um julgamento mediático de tipo algum. Trata-se apenas da explicação de alguns factos que constam num processo que tem tudo de mediático mesmo que não queiram que tenha.

A alternativa seria que tal fosse explicado por quem de direito que não explica. Nunca explica porque é muito mais simples ficar confortável com estas situações que se tornam desconfortáveis.

No julgamento que se adivinha longínquo uma vez que a instrução ainda nem começou, será a altura e o lugar para se produzirem todas as provas. Agora, nas tv´s apresentam-se alguns factos.

Seria bem melhor que tanto a Associação Sindical dos Juízes, como a PGR explicassem isso claramente: que isto nunca poderá ser um julgamento mediático porque o julgamento judicial faz-se na sala respectiva com a garantia de todos os direitos de defesa e pode acontecer que alguns factos agora publicados nem se provem devidamente e os arguidos tenham que ser absolvidos. Mas que o sejam por isso mesmo e não por causa do secretismo que prefeririam impor.

A Censura é um dos males de sempre, em Portugal e pelos vistos tem mais adeptos do que seria de esperar.

ADITAMENTO:

Pelos vistos a Ordem dos Advogados também está contra o visionamento das imagens televisivas, por causa dos julgamentos na "praça pública". Espero que da próxima vez que o advogado Delille venha a terreiro televisivo desancar na "acusação" essa mesma Ordem o ponha na ordem. Ou mesmo o arguido excelentíssimo que se farta de vilipendiar o MºPº. Espero então que a Ordem dos Advogados faça o mesmo comunicado...mas sei que vou esperar sentado.

terça-feira, 17 de abril de 2018

A condição da informação actual e passada

Em meados de 1969 gerou-se no sector metalomecânico nacional que então empregava dezenas e dezenas de milhar de pessoas, em pequenas fabriquetas de aldeia e até cidades, um movimento de contestação a três decretos-lei, provenientes do Governo de Marcello Caetano que protegiam objectivamente a indústria siderúrgica nacional, então privada e que produzia aço, em diversas formas, para aquele sector.

A Siderurgia Nacional fora inaugurada em 1961 e destinava-se a prover o país dessa matéria primordial para a indústria, com o propósito confessado de nos tornar independentes de fornecedores externos e desse modo termos uma economia mais saudável e competitiva. Em 1965 conseguira uma ampliação para o Seixal e no final de 1968 tinham sido aprovados esses decretos proteccionistas.
Os diplomas em crise concediam vantagens e protecção industrial à SN, mas tiveram como consequência tornar os preços mais altos para aqueles pequenos e médios empresários das fabriquetas.
Eram medidas de protecção pautal, de incidência aduaneira, aos produtos siderúrgicos.
Alguns deputados na Assembleia Nacional preocupados com esses interesses localizados, trouxeram tal assunto a discussão, aquando da apreciação na generalidade o que obviamente perturbou o funcionamento da Siderurgia numa fase de expansão.
Essencialmente a discussão centrava-se na questão da rentabilidade de tal indústria que assim carecia de protecção. Não se negava a necessidade de tal, mas a extensão da mesma. E apontava-se o efeito: prejudicar o industrial do sector, o tal das fabriquetas que empregavam mais de 100 mil pessoas na altura, em Portugal.

Os defensores da SN indicavam que o projecto iniciado com o começo da década já tinha poupado ao país mais de 8 milhões de contos e prometia melhor futuro nesse campo, mas nem assim desarmaram aqueles contestatários que não eram esquerdistas mas industriais locais, como João Ulbach Chaves, dos lanifícios e outros.

Nessa altura estava no auge o problema do processo da herança Sommer que obrigou Champalimaud , o mentor de todo o projecto da SN apesar de não ser gestor da mesma ( delegava isso em técnicos),  a refugiar-se no México, pelos vistos a conselho de Adriano Moreira que não sabia que na altura o Brasil serviria na mesma como refúgio seguro . Estas informações foram recolhidas da biografia de Champalimaud, da autoria de Isabel Canha e Filipe S. Fernandes, aqui já referenciada.

Como é que esta discussão se fez na opinião pública? De um modo que agora não se faz relativamente a outros projectos, por exemplo o do TGV...

A revista Vida Mundial, de 4.7.1969  dava a capa ao assunto e explicava num pequeno ensaio, assinado por Adelino Cardoso o que se passava, claramente e sem subterfúgios. Adelino Cardoso era um esquerdista que consultou fontes que indicou expressamente, ao contrário do que hoje sucede com os jornaleiros da ensaística avulsa. Não condicionava a informação, como hoje o fazem.
Ah! E não menciona uma única vez o nome de Champalimaud...



Há por aí muitas pessoas a bolsar asneiras sobre o "condicionamento industrial", sem saberem o que foi e como foi e apenas baseados nas opiniões esquerdistas de outros asneirentos como eles.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

A utilidade das idiotices sobre o salazarismo

No Correio da Manhã de ontem um dos seus cronistas habituais, o politicamente correcto q.b., João Pereira Coutinho fez o que podia pela imagem conservador e liberal que ostenta na lapela escrita. Resultado: uma idiotice útil à intelligentsia nacional.


Com este tipo de escrita mantém-se o dois em um,  do agradável e do útil que confere honras de escrita nos jornais nacionais: a imagem de democrata sólido, conferida pelo antizalazarismo aprimorado, aliada ao retrato irrisório de uma oposição canhestra e incompetente e por isso em foto-maton.  Daí o elogio rasgado ao autor do ensaio em recensão: "brilhante", diz o escriba Coutinho, imbuído numa preocupante miopia suspeita.

A "pobreza do tempo de Salazar" mesmo em início de regime, porque não demarcada nem contextualizada,  é assim objectivamente associada ao próprio Salazarismo, culpado daquele flagelo e sem referência alguma ao republicanismo que a criou e alimentou, vinda de um século XIX ainda monárquico e principal responsável pela calamidade social. É que este Coutinho parece que já o foi...monárquico, entenda-se. Viva o rei!

Enfim, para desvanecer estes preconceitos de origem porque razão não consultam estes escribas um manual antigo e já conhecido que além da propaganda do regime de Salazar também apresenta factos e mais factos contra os quais estes argumentos esquerdizados deviam soçobrar ?

Daqui, on line, pode ler-se o que era o regime de Salazar quanto à pobreza e medidas curativas tomadas para a debelar, nesse tempo:


O que me custa um pouco, mas só um pouco enquanto não faço o esforço para compreender estes pequenos trambiqueiros do verbo escrito, é perceber porque escrevem assim. E só encontro uma explicação: se não fosse assim não teriam onde escrever. E isso, compreende-se: há que ganhar a vidinha nem que seja como as da vida.

Quanto ao assunto do livro incensado, aqui fica uma notícia da época, precisamente do dia seguinte, 5.7.1937. Lá vem a expressão de Salazar nos momentos a seguir ao atentado: "bem, vamos à missa". E foi:


Salazar, o povo, os seus inimigos e as mistificações esquerdistas



Irene Flunser Pimentel, divulgadora de livros sobre Salazar e que é doutorada em História foi entrevistada pelo Diário de Notícias de Domingo a propósito do mais recente lançamento: Inimigos de Salazar.
O entrevistador João Céu e Silva, que se revela ideologicamente muito próximo da autora,  faz da entrevista um monólogo socrático em que a finalidade principal é demonstrar o quanto foi horrível o regime do Estado Novo.
Para tal nem hesita em amalgamar o período de 1968 a 1974 como perfeitamente inserido no regime porque afinal, para a autora do livro, com a complacência do entrevistador , " o seu regime perdurou com a maioria das suas principais características, embora com algumas diferenças, com Marcello Caetano". Assim, de uma penada junta-se o  fassismo salazarista ao  marcelismo primaveril, numa extensão útil e agradável e o rigor histórico que se lixe.
E quem não salta com essa dança macabra é reaccionário e  portanto desprezível como comentador.

Para que não se diga que a autora é historicamente míope lá vem a justificação de que afinal " os que se opuseram a Salazar- uma minoria dos portugueses, que por isso foi reprimida e perseguida- tentaram por formas diversas  que fosse derrubado. O que não significa por si só que todos quisessem instaurar a democracia".

Ora aqui é que bate o ponto sem nó.  Quem é que efectivamnte queria a tal democracia dos que se opuseram a Salazar e ao salazarismo? Melhor ainda: é ou não verdade que Marcello Caetano estava mais próximo da democracia ocidental como a conhecemos do que alguns dos que se diziam democratas? E não era seu desiderato fazer a transição de um regime autoritário para um mais participado pela oposição? E tal não sucedeu em concreto com diversas medidas tomadas durante os mais de cinco anos que esteve no poder? E que só a guerra no Ultramar tal impediu?
Neste contexto, falta por isso incluir Marcello Caetano no lote dos inimigos de Salazar...o que é verdadeiramente um incómodo para estes historiadores da pacotilha marxista que assim ficam desalmados no seu antifassismo primitivo.

A história do Estado Novo, para estes divulgadores é quase a história que o PCP faz desse tempo, sem tirar nem pôr. Et pour cause, uma vez que estão ideologicamente próximos dessa esquerda comunista e por isso comungam do ideial. O socialismo democrático de que muitos se reclamam não conseguiu ainda destrinçar com segurança ideológica o que é o verdadeiro fascismo das características intrínsecas ao que era o Estado Novo e reage pavlovianamente a tudo o que seja poder político anterior ao 25 de Abril de 1974. Não há subtilezas naquela narrativa porque senão ficavam sem narrativa.

Estes historiadores precisam de Salazar como se de pão ideológico se tratasse e alimentam-se com essas mistificações.
Por exemplo, nunca dizem que Salazar foi fascista, uma vez que seria uma enormidade. Mas dizem que o Estado Novo era fascista. Ou seja, o fascismo, contra Salazar...

A amálgama histórica que completam com a elipse dos anos posteriores à morte de Salazar e à Primavera marcelista torna-se por isso comparável à nossa "primavera de praga" na medida em que  para o esquerdismo vigente o regime se manteve intocável,  mesmo com as mudanças aparentes e reais na sociedade e na estrutura do poder. Porque é que isto sucede? Mais uma vez por empréstimo ideológico do PCP. O fascismo, para o PCP,  é assimilável a tudo o que mexe na sociedade capitalista de tipo ocidental com um mínimo de controlo sobre os seus inimigos, no caso o PCP.
A Alemanha do pós guerra proibiu o partido comunista. Logo,  regressou ao fascismo porque reprimiu quem os queria libertar de vez do capitalismo.
 Na boca suja do PCP e dos seus instrumentos da verdade  como direito concedido por eles, todo o regime que os afaste do convívio político é fascista. A Inglaterra é um país eminentemente fascista por isso mesmo. Os EUA evidentemente. Até têm lá a CIA...imagine-se!

O mais irónico nestas mistificações permanentes e apadrinhadas por toda a esquerda, incluindo a bempensante do socialismo democrático, como é o caso do entrevistador, é a circunstância nunca explícita ou sequer subentendida que confronta o PCP com a sua realidade histórica e ideológica.

O contraponto para a vituperação do regime de Salazar como fascista nunca se faz relativamente ao que é verdadeiramente a alternativa desejada pelos comunistas de sempre e desde a Revolução de Outubro: um regime verdadeiramente ainda mais fascista, socialmente comprometido com um totalitarismo insuportável e que conduziu inevitavelmente à sua queda no final dos anos oitenta do século passado porque representa um estendal histórico de milhões de mortos no processo Holodomor dos anos trinta, nos gulags que não têm a mínima comparação possível com qualquer tarrafal em termos de horror concreto e vivido por milhões.A repressão política feroz, com a liquidação física e sumária de opositores ( o caso Humberto Delgado ao lado destes é ridículo)  aos milhares e em massa no tempo de Estaline; a Censura efectiva que não tem comparação alguma com a produzida em Portugal no tempo de Salazar e nos países europeus na mesma altura; a limitação politica ao Partido, sem qualquer veleidade democrática do tipo ocidental ( não havia partido Socialista democrático, na URSS e nos países de Leste, como esquecem os socialistas que convivem bem com estes comunistas)  e a instauração de um regime verdadeiramente totalitário, assumido e sem qualquer preconceito porque afinal ao serviço do povo...

Só isto bastaria para mandar os comunistas lamber sabão, para ver se lavam a boca ideologicamente suja. Porém, não é isso que sucede. Dá-se voz activa a estes historiadores da pacotilha marxista, que nunca colocam a equação fatal que os desautoriza moralmente: os comunistas não têm qualquer autoridade moral ou política para reivindicar democracia porque não acreditam nisso, enquanto modo de organização social ocidental e europeu. Nunca acreditaram e continuam a não acreditar. A ideia de democracia para um comunista é a popular, a ausência de classes e de luta entre elas, através da socialização dos meios de produção e a criação de uma estrutura burocrática no Estado que controle tal processo. Foi e continua a ser. Daí ao totalitarismo comunista o passo é mais curto que a perna e conduziu ao embalsamento de Lenine e à glorificação de Estaline, o "pai dos povos".

Salazar não tinha só inimigos entre os visados pela mistificadora histórica em causa. Tinha também adversários, conceito que não é conhecido entre os comunistas porque a divisão é sempre a preto e branco entre nós e eles, o povo e os burgueses, os ricos e os pobres.

Salazar tinha o apoio da esmagadora maioria do povo português porque o povo português não era parvo e sabia o valor de Salazar que era um filho do povo que nunca se tornou naquilo em qu os comunistas que dominam o aparelho do poder se tornam: déspotas sem freio de espécie alguma, a não ser cair na desgraça do partido e perder os privilégios que não são extensíveis ao povo. Perderem o direito a casas melhores, a carros melhores, a bens de consumo melhores, a datchas para férias melhores, etc etc etc, numa série de verdades históricas sempre omitidas por estes mistificadores. O povo comunista foi o povo mais oprimido da História, mais que em qualquer fascismo real, o italiano ou o nazi. E essa verdade é tão nua e crua que os comunistas não a engolem e ninguém lha faz engolir, porque o número de idiotas úteis em Portugal não tem conta.

Os povos do Leste fartaram-se desta ideologia que por cá continua vicejante e a dominar os media nacionais, através dos idiotas úteis como este entrevistador.

E quem assim não pense, como essa gente pensa,  é...reaccionário. "Cada vez mais"...  

domingo, 15 de abril de 2018

O eNeMi e a imprensa musical inglesa


O jornal inglês de música popular New Musical Express ( NME) vai deixar de se imprimir e passar a formato digital integral.

O jornal, agora revista, provavelmente o mais antigo do mundo dedicado ao tema, não aguentou a mudança de costumes e hábitos de leitura e fecha portas à edição impressa depois de várias décadas ( apareceu em 1952) em publicação semanal e depois periódica.

O jornal foi um caso de grande sucesso nos anos setenta do século que passou apesar de existir desde os nos cinquenta. No fim da década de sessenta esteve quase a desaparecer devido às vendas insuficientes, comparado com o seu directo concorrente, o Melody Maker.
É isso que se escreve no livro The History of the NME, de Pat Long publicado em 2012  pela Portico.


No início da década, inspirado pela Rolling Stone americana e ainda em ideias vindas da Time Out, para além do mais obscuro OZ e IT, uma nova equipa redactorial com destaque para Nick Logan e Roy Carr, mudaram o conteúdo e a partir de 1971-72  deram um impulso decisivo para o que se iria tornar o principal jornal de música popular da Inglaterra, durante os anos setenta.
E como o fizeram? Explica-se assim no tal livro:


Copiaram o estilo do "novo jornalismo" americano e passaram a dar importância aos novos grupos musicais e artistas que surgiram então na ribalta. E foram muitos e bons e os artigos igualmente.

Por mim, apanhei a melhor fase do jornal, logo em Julho de 1974 e tudo por causa da música que ouvia no rádio, no programa Página Um, por exemplo.

Lia então esses jornais porque eram a fonte de informação privilegiada sobre o que se passava no panorama da música rock anglo-saxónica, a par da Rolling Stone e da francesa Rock&Folk. Por cá, os que escreviam nas revistinhas e jornais que se foram editando sobre o assunto, sempre muito pobrezinhas mas honradas, faziam o mesmo e por isso preferia sempre os originais às cópias. 

Um dia dei a folhear uma edição que trazia o nome de Maria Muldaur, uma americana de quem se ouvia na altura a canção Midnight at the oasis que era um êxito em todo o lado mas duvido que por cá se mencionasse ou desse notícias sobre quem era.
Na época havia por cá o Musicalissimo e a Mundo da Canção que não ligavam muito a essa música de proveniência norte-americana.  Preferiam ouvir "a paz, o pão, habitação, saúde, educação" do Sérgio Godinho e outros que tal do tempo do PREC em que tudo parecia possível.


Mas não foi apenas por causa da Muldaur no oásis à meia-noite. Neil Young era então um artista de referência que andava a descobrir, depois de ouvir Harvest. E em 1974 saíra On the Beach, um disco estranho vindo de algures. No ano seguinte seria ainda mais estranho ( Tonight´s the night) e melhor.


Juntando a isso uma lista de discos publicados, para vender por correspondência  e que só através deste meio de informação conheceria, dei os 12$50 ao empregado da Bertrand, no Porto na rua 31 de Janeiro, nesse final de Julho de 1974 e trouxe pela primeira vez o jornal comigo. Ainda cá está...e nos tempos que se seguiram anotei os discos que queria ter...se pudesse. Todos os Crosby Stills Nash & Young, claro. E outros. Alguns ainda não os tenho porque perdi interesse ( Rod Stewart e Smiler; Sailor; Eric Clapton e 451 Ocean Boulevard; Joe Cocker e I can stand a little rain; Melanie, Madrugada.


 Nos anos a seguir nessa década prodigiosa, foram vários os números que comprei, sempre que a capa prometia bons artigos.



Em Dezembro de 1974 apreciava ouvir os Bad Company e também os Led Zeppelin, prestes a lançar um novo álbum que seria duplo e um marco musical, em 1975: Physical Graffiti. O jornal ( Nick Kent, o principal artista da escrita) antecipara-se e fazia neste número a recensão do disco, com apreciação de todos os temas. Quando o disco saiu e foi divulgado por cá ( Página Um) já o tinha lido...


Os artigos lá vinham mas a surpresa foi ver este sobre Brian Eno que então passava no rádio no disco June 1, 1974 de um concerto que também tinha Kevin Ayers e John Cale que muito gostava de ouvir na altura ( e agora).




Este apego ocasional ao NME durou até ao final dos anos setenta. A partir daí só números especiais e mesmo assim muito espaçados.







Um dos seus principais responsáveis ( Nick Logan) , aliás, saiu para fundar outra revista: Smash Hits, aqui um número de Setembro de 1982, com um das poucas bandas que me despertaram a atenção nessa década: os ABC.


 Não satisfeito ainda fundou a seguir a The Face, em Maio de 1980, a revista da moda musical dessa década, aqui num número de Junho de 1982:


Porém, o NME não era o único jornal ou revista dedicado ao assunto da música popular, na Inglaterra.
Havia ainda o Melody Maker que em 1975 trazia na capa Roy Harper e comprei por causa disso:


A seguir veio mais um molho deles, todos dessa década. Os artigos eram jornalísticos, sem mais e sem o aplomb dos que o NME publicava, particularmente os assinados por Nick Kent. Porém, de vez em quando lá surgia um interesse qualquer ( por exemplo os Dire Straits que não eram muito lá da casa do NME):


  Antes disso em Julho de 1972 comprara o Disc que trazia na capa o baterista dos Deep Purple, uma banda que me agradava ouvir nessa altura e era também muito popular. Este já era a cores e com um aspecto gráfico muito superior ao daqueles veteranos:


 O Record Mirror, igualmente mas num registo mais pop,  num número de Março de 1978:


 O Zig Zag, intelectualizado em demasia para o assunto em causa,  num número de Maio de 1976:


 Em 2002 por ocasião do 50º aniversário do NME os então editores ( Ben Knowles, um deles) publicaram um número especial em que reuniam os nomes mais importantes do espectáculo até essa data e consoante as décadas. O nome de David Bowie destacava-se de todos os demais, ao longo dos anos e foi com esse artista que começaram e vender mais exemplares no início dos setentas:


Os anos oitenta são uma década relativamente perdida para mim. Nem um número sequer do NME ou do MM tenho, para mostrar...mas também musicalmente, na Inglaterra,  não houve coisas assim muito significativas.
Isso é notório quando se folheiam as páginas do número comemorativo do 60º aniversário, publicado no Outono de 2012. Smiths e Jesus and the Mary Chain, para além dos Guns & Roses, Beastie Boys e Pixies, são os grupos maiores apresentados pela publicação como os mais significativos da década.
É certo que houve Talking Heads, mas já vinham de trás. E Michael Jackson, mas também idem. E Prince não vinha mas é a excepção que confirma a regra. E Joy Division é um mundo à parte e não conta para a década. Em suma: o jornal não me interessou nessa década. Tinha os americanos para ler, da Musician e também da Downbeat que começaram a interessar-me.



 Ainda nos anos oitenta, em finais de 1986, os apresentadores de um programa de tv britânico consagrado à música popular- The old grey whistle test- de que há vários ( 4)  dvd´s com gravações do programa, todas excelentes e recomendáveis, David Hepworth e Mark Ellen, lançaram uma revista com o nome Q.  Era uma novidade e apesar de impressa em papel pesadíssimo, couché até mais não, comprei regularmente apesar de deixar muito a desejar.

Nos dez anos da revista, em Outubro de 1996,  aqueles já não eram os principais editores mas apresentaram um número especial, assim:



 Nos anos noventa apareceram outras publicações sobre o mesmo assunto e nessa altura já em repescagem dos artistas das décadas passadas, fenómeno que se acentuou com o passar dos anos e se tornou endémico nos últimos tempos.

Na década de oitenta havia já uma Record Collector dedicada aos coleccionadores de discos passados e com indicação das respectivas cotações. A revista passou gradualmente a tratar dos temas habituais, para além das listas e actualmente é uma das mais conceituadas do sector, com artigos sempre interessantes, informados e rigorosos.


 Em finais de 1990 surgiu outra que viria a tornar-se um caso sério de qualidade na escrita musical e popular.  A Vox, aqui no número 3 de Dezembro  de 1990 foi uma lufada de ar fresco ao arrepio do estilo Q. Mais artigos de fundo, melhor grafismo, recensões e críticas discográficas mais consistentes e um suplemento de 30 páginas em todos os números: Record Hunter. Neste número, sobre os Byrds e os 40 anos da etiqueta americana Elektra. Uma revista cross-over com a cultura rock americana.


 A Vox que acabou em 1998 tinha como editor Roy Carr que tinha sido jornalista no NME e também no Melody Maker, para além de autor de alguns livros sobre o assunto da música popular ( por exemplo co-autor do dos Beatles,  An Illustrated Record, com artigos cronológicos e as capas de todos os discos em tamanho real, editado em 1975).

Em Novembro de 1993 apareceu a Mojo. Aqui o primeiro número, que prenunciava grandes mudanças no estilo de informação musical e reportagem do género.



A revista foi o grande salto em frente nesse tipo de publicações. De tal modo que fiquei sem vontade de continuar a ler a Q ou mesmo a Rolling Stone que fui comprando de modo cada vez mais esparso.

A Mojo tinha um corpo redactorial novo -Paul du Noyer era o director- mas integrou logo a seguir Charles Shaar Murray e Nick Kent que foram do NME,  e outros. Até hoje, uma das melhores revistas do género no mundo inteiro. Desde 1993 já passaram quase 25 anos, ou seja, mais de 250 números. Tirando algumas dezenas, poucas, tenho-os na esmagadora maioria. O primeiro que comprei foi na extinta loja Virgin, no Porto e tornou-se uma revista de culto rapidamente, tal como a Rolling Stone o tinha sido na década de setenta.

Alguns anos depois surgiu outra que agora compete directamente com a Mojo: a Uncut, publicada pela primeira vez em Junho de 1997, com este primeiro número, tendo como editor principal Allan Jones que saiu em 2014.


A Uncut, em 2012 passou a publicar entrevistas e artigos do acervo arquivístico do New Musical Express e também do Melody Maker e ao longo dos últimos anos tem publicado regularmente, tal como a Mojo, números especiais sobre diversos artistas e grupos.
Há poucos anos iniciou a publicação regular e mensal de volumes sobre A History of Rock, cobrindo os anos de 1965 em diante, tudo com recurso a artigos e fotos já publicados e acrescentados, vindos daquele acervo arquivístico. 



 Em Fevereiro de 2003 apareceu uma outra, mais palavrosa e intelectual, The Word ( aqui o número de Julho de 2011) dirigida por David Hepworth ( um dos autores do old grey whistle test)  e que já acabou, em Junho de 2012, por falta de discurso sobre os assuntos em causa ( está tudo dito ao longo destas décadas, mas continuam a publicar-se repetindo os temas e por vezes as fotos). Este número tem a ilustração da capa da autoria de André Carrilho:


Nos últimos anos as publicações diversificaram-se um pouco e especializaram-se como esta Classic Rock, de Maio de 2010 embrulhada em cartão ilustrado ( a que o scanner não consegue captar o brilho prateado) , melhor que a capa do disco propriamente dito. Por isso comprei... mas raramente caí noutra:


E pronto. Essencialmente é isto no que se refere às inglesinhas. Falta-me a Sounds, mas nunca vi e nunca comprei.
De resto ainda faltam as americanas, as francesas, alemãs e espanholas. Todas capitosas a dignas de serem vistas. Um dia destes, talvez as mostre...

Por enquanto e para me certificar que isto não é uma maluqueira acabada e exclusiva apresento malucos em grau mais avançado.

Por exemplo este que é o meu ídolo nesta maluqueira: Colin Larkin, o autor de uma enciclopédia da música rock e que começou a coleccionar o NME desde 1961 e "nunca deitou um número fora". Tal como então escrevi, em 24 de Agosto de 2007, com imagens da Record Collector de Setembro de 2005:

Colin guarda 3000 LP´s; 2000 singles em vinil; 30 000 cd´s; 4000 livros sobre a música popular e ainda comics ( não deve ter nada da bd franco-belga…), suplementos dominicais do Observer e do Sunday TImes, apanhando os anos sessenta e setenta e, cerejas reais no topo deste bolo fabuloso: colecções completas ou quase, de todas as publicações dedicadas à música, desde 1961: cerca de 15 000, com títulos míticos como Sounds, Zig-Zag, Disc and Musica Echo, Record Mirror, Beatles Monthly e os mais correntes New Musical Express, Melody Maker e Rolling Stone. Faltam-lhe, claro, as francesinha Rock & Folk e Best e ainda as alemãs PoP e Musikal Express ( o que não é garantido, porque Larkin, começou a escrever sobre música para uma revista alemã...) e também não li nada sobre a Crawdaddy americana, a primeira revista a sair a público, em 1966, sobre a música popular, (não contando como os jornalinhos que já então saíam periodicamente, num e noutro lado do Atlântico, como Billboard e Melody Maker).
Esta colecção de Colin Larkin é o sonho de qualquer amador de música popular e das imagens e textos associados.
  







E outro, tirado daquela Word. Precisamente Bob Harris um dos co-autores do programa de tv acima apontado ( The old grey whistle test, cujos dvd´s, já antigos,  se recomendam) :


That´s all folks!